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TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO IRRIGARIA MACONHA

Jan 20th, 2009 03:45 pm

Triângulo da Maconha. Marrocos.
Paraguai. Maconha mentolada. Erradicação

Esta matéria foi veiculada na Folha de São Paula, edição de 04.01.09, tratando-se de avaliação do delegado de Polícia Federal em Salgueiro (PE) e da PM de Cabrobó (PE). Ligações clandestinas beneficiariam plantações de maconha em Pernambuco ao longo das passagens dos canais de água.
Pernambuco faz parte do chamado polígono da maconha, formado tam-bém pelos Estados do Piauí, Bahia e Maranhão. A região produz 20% do total da maconha consumida no Brasil, mas sua qualidade é inferior à produzida no Paraguai, responsável por 80% do consumo brasileiro. Já ouvi de um traficante que um dos grandes sonhos do consumidor desse polígono é poder usar ma-conha paraguaia.
A Folha informa, ainda, que a Polícia Federal, só no Estado de Pernam-buco, nos últimos três anos, erradicou 702.598 (2006), 294.716 (2007) e 2.131.687 (2008) pés de maconha, totalizando 3.129.001 pés. Um bom resul-tado, tendo em vista as dificuldades de mobilização na área e o pequeno orça-mento da Polícia Federal. Traço um paralelo com o Paraguai, nosso grande fornecedor.
Segundo maior produtor de maconha do mundo, com apenas 406.752 km2 e uma população de pouco mais de seis milhões de habitantes, o Paraguai cultiva, anualmente, 5.500 hectares de maconha. Para dificultar a atuação da polícia, as plantações são feitas em lugares ermos, normalmente em encostas de montanhas. Estimativas indicam que a produção anual rende em torno de R$ 650.000.000,00 de reais. Marrocos ocupa a primeira posição mundial, tanto em área plantada como em toneladas. Todavia, a maior parte da maconha do Marrocos é transformada em haxixe, sendo este exportado para países euro-peus, principalmente a Espanha. Isso acontece porque Marrocos fica perto de países desenvolvidos, onde a tendência é o consumo de produtos mais puros e sofisticados do que a maconha. O Paraguai produz pouco haxixe.
Nos últimos 10 anos (de 1999 a 2008), o Paraguai, através de sua Se-cretaria Nacional Antidrogas (SENAD), que, diferentemente da Senad brasilei-ra, tem poder de polícia, erradicou 11.000 hectares de plantação de maconha, contando sempre com a colaboração da Polícia Federal do Brasil, em opera-ções conjuntas. Esse trabalho conjunto começou em 1994, graças aos esforços do então superintendente da PF em Mato Grosso do Sul, Dr. Wantuir Jacini. Estive presente em duas ou três dessas grandes operações, conheci o então Governador Robert Acevedo, do Departamento de Amambay, hoje Senador, grande colaborador do Brasil no combate ao tráfico de drogas.
Se o Paraguai cultiva 5.500 hectares por ano e se erradicou 11.000 hec-tares, tem-se a enganosa impressão de que quase tudo foi eliminado. Não é assim. Existe uma matemática para explicar o contrário.
As terras paraguaias, principalmente no Departamento de Amamby, que engloba Capitán Bado, local de maior concentração mundial de maconha por hectares, são ótimas para essa finalidade. Não há necessidade de irrigação como ocorre no polígono da maconha (PE, PI, MA e BA) ou em certas regiões do Marrocos. Uma mesma área produz, seguramente, com boa qualidade, três safras anuais. Os 5.500 hectares passam, pois, a representar, na realidade, uma plantação de 16.500 hectares por ano. O Paraguai erradicou 11.000 hec-tares em dez anos. Multiplicando-se os 16.500 hectares por dez anos, haverá o resultado de 165.000 hectares. Em outras palavras, essa foi a quantidade de hectares cultivados, nos últimos dez anos, com plantação de maconha. Assim sendo, o Paraguai erradicou apenas 11.000 dos 165.000 hectares cultivados no mesmo período, o que corresponde a 6,67%, apenas.
Isto ocorre em relação à maconha comum, tradicional. Acontece, porém, que, mediante modificação em laboratórios, o Paraguai, a partir do começo desta década, passou a produzir a chamada maconha mentolada. Neste caso, além da melhor qualidade, a colheita é reduzida para apenas 90 dias. Se os 5.500 hectares fossem cultivados apenas com mentolada, seriam quatro safras por ano. A conta seria outra, ou seja, a operação matemática resultaria em 220.000 hectares, transformando os 11.000 hectares erradicados numa insigni-ficância muito maior.
Em 2003, testemunhei a Polícia Federal brasileira e a SENAD paraguaia a encontrarem, pela primeira vez, uma plantação de maconha mentolada, dis-tante 40 km da fronteira. O delegado Ronaldo Urbano, na época, Diretor-Geral de Entorpecente da Polícia Federal, levou um pé para Brasília a fim de ser sub-metido a exames laboratoriais. Em 2004, a Policia Federal de Ponta Porã-MS apreendeu o primeiro carregamento do gênero (mais de três toneladas). Coin-cidência ou não, tive o prazer de julgar esse caso.
A maconha mentolada foi inventada por várias razões que se resumem numa só: o fator econômico, o lucro. Relaciono as principais: 1) uma mesma área produz mais vezes ao ano; 2) na escassez de terras, o produtor pode re-duzir em quase um terço a área e obter o mesmo resultado; 3) agrada o gosto do consumidor, aumentando a procura; 4) é mais cara do que a maconha co-mum; 5) engana o faro dos cães da Polícia Federal, preparados e acostumados ao cheiro da outra. Aqui talvez residisse grande esperança para os traficantes. Enganando os cães, a maconha camuflada em meio a uma carga de um produ-to qualquer teria mais chance de passar.
Volto à transposição do Rio São Francisco. Não há dúvida de que os tra-ficantes serão beneficiados. Eles tiram proveito de qualquer avanço da ciência e da tecnologia. Há infinidades de exemplos. Quem diria que o preservativo camisinha viria a ser usado para acomodar cocaína no estômago do mula ou na parte íntima de uma mulher?
O governo federal poderá solucionar essa situação, no polígono da ma-conha, se empregar um expediente posto em prática pelos americanos em vá-rios países produtores principalmente de cocaína. É o chamado desenvolvi-mento alternativo rural. O governo geraria empregos ou atividades autônomas para desestimular o trabalho em plantações de maconha. Isto é custoso, por-que envolve infra-estrutura e financiamentos, mas dá resultados.
Nasci no sertão pernambucano quando ainda não havia essa praga por lá. Trabalho é difícil naquele agreste. Um chefe de numerosa família ganha, num cultivo de maconha, diária até cinco vezes maior do que numa roça de feijão, por exemplo, quando acha serviço. Entre ver um filho morrer de fome ou trabalhar numa plantação de maconha, que opção fará o chefe dessa família?




Jan 21st, 2009 02:51 am
Se esse chefe de familia tiver a infelicidade de ser preso,e fosse o sr a julga-lo,haveria alguma interpretação déssa situação?


Jan 23rd, 2009 08:24 pm
Dionysio,

sim. Conquanto inafiançável, eu concederia liberdade provisória sem fiança. Ao julgar, se houvesse condenação, aplicaria a redução de 2/3, resultando a pena em 02 anos (art. 33, § 1º, I, c/c o § 4º, Lei 11.343/06). Mandaria cumprir em regime aberto, com condições especiais favoráveis.
Não dá para reconhecer a excludente de estado de necessidade. Todavia, conforme a situação concreta, poderia até ser acolhida a tese de coação irresistível. No caso, se ficasse provado que o réu tivesse sido forçado a trabalhar na lavoura de maconha. Isto ocorre muito no sertão nordestino. Ou o cabra trabalha forçado ou sofre as consequências.


Mar 11th, 2009 02:24 am
Oi Odilon, como vai?

Desculpe-me a falta de imagem, mas acabei de criar esse blog e estou aprendendo a maneja-lo. Achei interessante o chamado "desenvolvimento alternativo rural". Há alguns anos estudo a dinâmica do tráfico de animais silvestres e percebo que muitos grupos envolvidos não possuem predileção por "mercadoria": seja um animal, drogas, um conteiner de cigarro e qualquer outra coisa, desde que exista um mercado consumidor interessado.

Você poderia fornecer exemplos ou indicar onde posso encontrar mais informações sobre essa metodologia de combate que foca a questão econômica? Muito interessante...

Grato,
Marcelo


Sep 24th, 2009 10:09 pm
Irrigar a seca de novidades tecnologicas do 1@ mundo ...promover a autosustentabilidade deste povo oprimido pelos seus proprios conterraneos,
que depois emigrar pra sum paulo...eis a verdade da explosao demografica,
do desemprego, e da criminalidade exorbitante.
PASSAPORTE ESTADUAL JAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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